Como lidar com a ansiedade adolescente na volta às aulas

Adolescente sentada numa carteira escolar com cara emburrada.

Ansiedade adolescente na volta às aulas pode ser mais leve

A volta às aulas não é só “rotina”: para muitos adolescentes, é um período de tensão social e mental. Quando a cabeça fica dispersa e a ansiedade sobe, estudar vira sofrimento. Dá para construir organização e foco sem rigidez e sem culpa.

A ansiedade adolescente na volta às aulas é uma realidade cada vez mais frequente no consultório. E não tem a ver com falta de vontade ou preguiça. Tem a ver com um cérebro em desenvolvimento, com demandas novas, com pressão interna e externa e com um mundo cheio de distrações. A boa notícia é que, com compreensão e estratégias certas, é possível transformar esse período em um recomeço mais leve e possível.

 

O que muda no cérebro com retorno de rotina

O retorno às aulas exige uma transição importante do cérebro do adolescente. Depois de um período de férias ou ritmo mais solto, o cérebro precisa se readaptar a horários, regras, interações sociais e demandas cognitivas mais intensas.

 

Atenção, energia mental e adaptação

O cérebro humano busca economia de energia. Durante as férias, há menos exigência de concentração prolongada, menos necessidade de planejamento e menos cobrança por desempenho. Quando as aulas voltam, o cérebro precisa ativar novamente circuitos de atenção e concentração, memória de trabalho e controle inibitório.

Para o adolescente, esse processo pode ser mais desafiador porque o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas frontais, responsáveis pelas chamadas funções executivas. Isso significa que ele pode sentir:

  • Dificuldade para retomar o ritmo.
  • Cansaço mental mais rápido.
  • Distração frequente.
  • Sensação de estar sempre atrasado ou perdido.

Além disso, há o componente emocional. A escola não é só um espaço de aprendizado acadêmico, mas também social. Avaliação, comparação, medo de errar, expectativas familiares e conflitos com colegas podem aumentar a ansiedade.

É por isso que, muitas vezes, o adolescente até quer estudar, mas sente que não consegue se organizar ou manter o foco. O problema não é falta de interesse, e sim um sistema que ainda está aprendendo a se autorregular.

 

Funções executivas: o “painel de controle” do estudo

Quando falamos em desempenho escolar, não estamos falando apenas de inteligência ou capacidade. Um dos fatores mais importantes é o funcionamento das funções executivas, que são habilidades cognitivas responsáveis por organizar o comportamento direcionado a objetivos.

Podemos pensar nelas como um “painel de controle” do cérebro.

 

Planejamento, inibição, flexibilidade cognitiva

As funções executivas incluem três pilares principais:

Planejamento

É a capacidade de organizar etapas, prever prazos, dividir tarefas e estabelecer prioridades. Sem planejamento, o adolescente tende a deixar tudo para a última hora ou se perder em várias tarefas ao mesmo tempo.

Inibição

É a habilidade de controlar impulsos e resistir a distrações. Isso inclui conseguir desligar o celular, evitar redes sociais durante o estudo ou resistir à vontade de abandonar uma tarefa difícil.

Flexibilidade cognitiva

É a capacidade de se adaptar a mudanças, lidar com erros e encontrar novas estratégias quando algo não funciona. Sem flexibilidade, qualquer dificuldade vira um bloqueio emocional.

Quando essas habilidades estão imaturas ou sobrecarregadas, o adolescente pode apresentar:

  • Procrastinação constante
  • Dificuldade em começar tarefas
  • Abandono de atividades no meio
  • Dificuldade em lidar com frustração
  • Pensamento rígido e autocrítico

A boa notícia é que essas habilidades podem ser treinadas e desenvolvidas com estratégias adequadas, principalmente com base em princípios da neuropsicologia e da Terapia Cognitivo-Comportamental.

 

Estratégias práticas (neuropsico + TCC)

Agora vamos para a parte prática. O objetivo não é criar uma rotina perfeita, mas uma rotina possível, que respeite o funcionamento do adolescente e ajude a construir consistência ao longo do tempo.

 

Checklist de materiais e horários realistas

Um dos primeiros passos para reduzir a ansiedade escolar é diminuir a sensação de caos. Isso começa com organização externa.

Crie com o adolescente um checklist simples e visual com:

  • Materiais necessários por disciplina.
  • Tarefas da semana.
  • Provas e trabalhos com datas.
  • Horários de estudo possíveis.

Importante: os horários precisam ser realistas, não ideais.

Por exemplo, ao invés de colocar três horas de estudo por dia, comece com blocos menores, como 30 ou 40 minutos. O cérebro aprende por repetição e consistência, não por excesso.

Outra estratégia importante é definir um ritual de início de estudo, como:

  • Organizar a mesa.
  • Separar o material.
  • Definir o objetivo da sessão.

Isso ajuda o cérebro a entrar no “modo foco”.

 

Técnica Pomodoro adaptada para adolescentes

A técnica Pomodoro é uma estratégia clássica de gestão do tempo, mas pode ser adaptada para o perfil do adolescente.

Em vez de blocos longos, use:

  • 25 minutos de estudo.
  • 5 minutos de pausa.

Após 3 ciclos, uma pausa maior de 15 a 20 minutos.

Durante os 25 minutos, o foco é em uma única tarefa. Nada de multitarefa. O cérebro não funciona bem fazendo várias coisas ao mesmo tempo.

Nas pausas, é importante evitar estímulos muito intensos como redes sociais, pois isso “sequestra” a atenção. Sugira pausas com:

  • Alongamento
  • Água
  • Um lanche leve
  • Respiração
  • Caminhar um pouco

Essa alternância entre foco e descanso ajuda a manter a energia mental e reduz a sensação de sobrecarga.

 

Como lidar com pensamentos de “vou fracassar”

Um dos maiores fatores de ansiedade escolar não é a matéria em si, mas os pensamentos que surgem diante dela.

Frases internas como:

  • “Eu não vou dar conta.”
  • “Todo mundo é melhor que eu.”
  • “Se eu errar, vai ser um desastre.”

Esses pensamentos ativam o sistema de ameaça do cérebro e dificultam o aprendizado.

A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha com a identificação e reestruturação desses pensamentos.

Um exercício simples que pode ajudar o adolescente é:

1. Identificar o pensamento automático
Exemplo: “eu vou tirar nota baixa.”

2. Questionar a evidência
“Isso já aconteceu sempre ou é uma possibilidade?”

3. Criar um pensamento alternativo mais realista
“Eu posso ter dificuldade, mas posso estudar por partes e pedir ajuda.”

4. Definir uma ação concreta
“Vou começar revisando o primeiro tópico por 20 minutos”

Esse processo ajuda a reduzir a carga emocional e aumentar a sensação de controle.

Também é importante validar a emoção. Dizer “não é nada” ou “é só estudar” não ajuda. O adolescente precisa se sentir compreendido para conseguir avançar.

 

Sinais de que vale investigar mais a fundo

Em muitos casos, as dificuldades de atenção, organização escolar e ansiedade fazem parte de um processo adaptativo e podem ser trabalhadas com orientação e estratégias.

Mas em alguns casos, pode haver algo mais profundo que precisa ser avaliado.

 

Quando considerar avaliação neuropsicológica

Uma avaliação neuropsicológica pode ser indicada quando há:

  • Dificuldade persistente de atenção e concentração.
  • Esquecimento frequente de tarefas e compromissos.
  • Grande desorganização mesmo com orientação.
  • Procrastinação extrema.
  • Baixo rendimento escolar sem causa aparente.
  • Dificuldade de compreender instruções.
  • Ansiedade intensa diante de provas e tarefas.
  • Histórico de dificuldades desde a infância.

Essa avaliação permite entender como estão as funções cognitivas, emocionais e comportamentais do adolescente, identificando possíveis quadros como TDAH, dificuldades de aprendizagem, ansiedade ou outros fatores.

Com esse mapeamento, é possível construir um plano de intervenção personalizado, com estratégias específicas para o perfil daquele adolescente.

 

O papel da família nesse processo

A família tem um papel fundamental na forma como o adolescente vivencia a volta às aulas.

Algumas atitudes que ajudam muito:

  • Evitar comparações com irmãos ou colegas.
  • Valorizar o esforço, não só o resultado.
  • Ajudar na organização inicial, sem fazer pelo adolescente.
  • Manter uma comunicação aberta e acolhedora.
  • Observar sinais de sofrimento emocional.
  • Incentivar pausas e lazer saudável.

A pressão excessiva pode aumentar a ansiedade e travar o desempenho. O apoio equilibrado fortalece a autonomia e a autoconfiança.

 

Organização sem rigidez e foco sem culpa

Um ponto muito importante é entender que organização não significa rigidez.

O adolescente não precisa ter uma rotina perfeita para aprender. Ele precisa de uma rotina possível, ajustável e que faça sentido para sua realidade.

Haverá dias de mais foco e dias de menos foco. Haverá semanas mais produtivas e outras mais difíceis. Isso faz parte do processo.

O que realmente faz diferença é:

  • Consistência ao longo do tempo.
  • Pequenas metas alcançáveis.
  • Estratégias ajustadas ao perfil do adolescente.
  • Acolhimento emocional.

Quando o estudo deixa de ser um campo de cobrança e passa a ser um espaço de construção de autonomia, o engajamento cresce de forma natural.

 

Ansiedade adolescente na volta às aulas pode ser tratada

A volta às aulas pode ser um período desafiador, mas também pode ser uma oportunidade de recomeço mais consciente.

Compreender o funcionamento do cérebro do adolescente, fortalecer as funções executivas, criar estratégias práticas e cuidar da saúde emocional são passos fundamentais para transformar a experiência escolar.

A ansiedade adolescente na volta às aulas não precisa ser vivida com sofrimento constante. Com orientação adequada, é possível desenvolver foco, organização e confiança de forma progressiva e saudável.

Se você ou seu filho percebe que a volta às aulas está pesada, um acompanhamento com a Psicóloga Vania Alcantara pode ajudar a entender o que está acontecendo e criar estratégias mais eficazes para esse momento.

Cuidar da mente também faz parte do aprendizado.